• Rafael Gloria

Todos aqueles pensamentos

Atualizado: 11 de Fev de 2019

Mais da metade da madrugada já havia ido embora, quando notei que minha esposa não estava na nossa cama. O rádio despertador na estante ao lado mostrava em cor vermelha o horário: três e meia da manhã. Acordei devido a um mau sonho, que tornou a cabeça tão confusa, a ponto de deixar-me alerta bruscamente, como um pássaro que foge assustado após um barulho qualquer. Buscava a normalidade ao vê-la dormindo, mas o que encontrei foi o abandono cruel dos lençóis, que nada mais preenchiam. A porta do quarto posicionava-se milimetricamente encostada, como se um pequeno vão fosse deixado propositalmente.


Os olhos minguados mal haviam se acostumado ao escuro que a madrugada ocupava com tanto vigor. Foi necessário esforço e tempo para levantar da cama, vestir o chinelo velho e ligar a o interruptor da luz do quarto que repousava quieto ao lado da porta. Não pude deixar de notar – mesmo com o sono, mesmo com o aperto suave do clarão invadindo meus olhos – pequenos pingos vermelhos no piso branco do corredor que fazia a divisa entre o quarto e o banheiro. Vermelho escuro, grosso, possivelmente ainda quente, morto, com todas as suas diferentes substâncias e composições químicas.


Corri ao banheiro, mas a porta estava trancada. Joguei gritos através da madeira seca, recém-pintada de verniz, para ocultar sua velhice, mas não obtive resposta em nada. Nem gemidos eu ouvia, reclamações, gritos de dor. Nada. A noite preenchia o vazio entre nós e os minutos rondavam os meus pensamentos.


Apenas onze semanas que descobrimos. Inesperada, mas não mal vista. Juntos há dois anos, situação estável de ambas as partes. Eu estava feliz, eu estava morno. Quando descobri até já conseguia me imaginar com ela no colo, nos conhecendo, nos modificando. Não poderia acabar assim.


Tudo isso me atravessava, enquanto eu batia cada vez mais forte na porta. Foi então que um estrondo contido respondeu aos meus suplícios. Era como se algo rachasse. Esbocei uma reação homérica, teatral, para derrubar a porta, mas a falta de força me impediu de prosseguir.


Antes que eu me recuperasse do ridículo esforço, a porta do banheiro, assim como a cortina de um teatro finalmente se abriu, e Cinara, como a personagem principal de uma peça, saiu sem me olhar, sem me dar a mínima satisfação, caminhando de volta ao quarto.

Observei os seus passos certeiros e confiantes. Percebi também um corte, quase um rasgo aberto, profundo, na sua mão esquerda. Acompanhei-a de volta à cama. A preenchi novamente com os lençóis, que agora voltavam a cumprir a sua mais primordial função. No rádio relógio quinze minutos se passaram.


A luz do corredor estava ligada, então, observei melhor o rosto de Cinara, que dormia como se dormisse há horas, dias – tão cheia de pensamentos. Reparei também, graças ao agora maior vão da porta do quarto, duas grandes rachaduras no espelho do banheiro, o sangue marcado.


Ainda haveria vida dentro dela. Tudo voltaria a ser normal.


Olhei para o rosto de Cinara novamente; então, virei para o lado e dormi.

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