• Rafael Gloria

Todo mundo conhece Cíntia Agostini?

Por Lucas George Wendt*

Me encontrei com Cíntia Agostini no dia 4 julho. Na fila do buffet, uma de suas colegas de trabalho me disse, como um cochicho: “Quando quiser almoçar com a Cíntia, marca na quarta, aqui”. Estávamos no Prédio 22 da Universidade do Vale do Taquari (Univates). O restaurante ocupa o andar térreo do prédio situado em frente ao Parque Científico e Tecnológico do Vale do Taquari (Tecnovates) onde Cíntia concentra, hoje, grande parte de suas atividades enquanto coordenadora administrativa do local. O Tecnovates é, também, a sede do Conselho Regional de Desenvolvimento do Vale do Taquari (Codevat), que Cíntia preside. Além dessas funções, ela é professora da área de Gestão Organizacional na Univates. A carreira acadêmica e o engajamento com as temáticas que atravessam o desenvolvimento da região iniciaram quase que ao mesmo tempo. Cíntia é graduada em Ciências Econômicas, possui mestrado em Ambiente e Desenvolvimento e doutorado em Desenvolvimento Regional - áreas nas quais emprega sua energia hoje. A fala enérgica e, ao mesmo tempo, acolhedora de Cíntia permite conversar sobre qualquer assunto. Na ocasião do nosso encontro, no entanto, a pauta foi ela. Procurei abordar aspectos diversos daqueles com os que estamos habituados a vê-la opinar na TV, no rádio e nos jornais do Vale do Taquari. Deixei com que falasse, interrompendo o menos que pude. Presença frequente, quase diária, na imprensa regional, a professora Cíntia sempre ter algo a dizer.


Crédito da foto: Lidiane Mallmann/Arquivo do Jornal O Informativo do Vale

A última entrevista que eu dei foi às 22h30min, na Rádio Gaúcha. Não sei quantas entrevistas dei ontem (3). As pessoas sabem quem eu sou, mas não me conhecem. Estou comendo e olhando pra tela, porque lá também está acontecendo a história do edital.


Cíntia pausa a conversa que estávamos tendo e olha pra TV. (O Jornal do Almoço daquele dia repercutia a decisão do Tribunal de Contas da União sobre a liberação do edital de concessão da BR-386, que atravessa o Vale, e do conjunto de estradas federais que comporão a Rodovia da Integração Sul. Este foi um dos projetos nos quais Cíntia, enquanto representante da região, esteve imersa em 2017).


A família e infância

Meu pai e minha mãe são de Progresso. A história deles é muito bonita. O nome do meu pai é Edacir Agostini e da minha mãe é Aldacir Agostini. Eles nasceram um pro outro. Casaram e foram morar em Marques de Souza. Nós nascemos em Marques. Meu pai é ferreiro, a mãe dona de casa. Têm eu, o mano e a mana. Eu sou um ano e três meses mais velha que meu irmão, e quase dez a mais que minha irmã. A minha família ensinava e brincava com todas as crianças do entorno. Todas vinham na minha casa. Sempre foi na minha casa que as coisas aconteciam. Seja pra jogar bolita, jogar bola… Meu pai ensinou todas as crianças da vizinhança a nadar, por exemplo. Quando eu nasci, nossa condição era mais difícil - nunca faltou nada - mas não tínhamos muita coisa. Quando a irmã mais nova vem, a condição da família já era melhor. Meu pai e minha mãe sempre foram muito presentes. Eu era daquelas que estava, por exemplo, lavando a louça de meio dia e de repente saí correndo: ‘Eu sei como resolver tal problema de matemática’. Quando estava deitada acontecia muito. Eu fui uma adolescente me difícil. Eu era muito do que eu sou hoje só que sem ter sido lapidada. Minha família sente um orgulho enorme de mim. Quem tá comigo sabe que passo dos meus limites, às vezes. Eles dizem: é ser mãe, é fazer doutorado, era ser esposa (as coisas mudam), é ter três gatos e três cachorros, uma casa pra administrar, é estar na Incubadora e agora no Parque, no Codevat, dar aulas... Claro que eu não faço tudo bem, mas eu faço o possível. Sou muito engajada: tarefa dada é tarefa cumprida. E, claro, eu tenho facilidade com alguns temas. Eu consigo lembrar de coisas e fazer associações que, se eu tivesse um outro perfil, talvez fosse difícil. Enquanto menina eu já dizia que seria executiva. A mãe tem lembranças disso. Esse era o termo que eu usava. Ela me dizia que eu seria professora. Eu nunca me via assim, professora de Ensino Fundamental ou Ensino Médio. A vida me levou pra isso numa outra dimensão: a Universidade”.


O Ensino Médio

O Ensino Médio eu fiz no Castelinho, em Lajeado. Em 1993. Ia e vinha todo o dia. Eu estudei o Fundamental em Marques. Nunca me esqueço do primeiro dia em que vim pra Lajeado. Não convivia com a cidade. Meu pai veio fazer a matrícula comigo. Eu desci na Rodoviária Velha, fui pra aula. Saí quando acabou as aulas do primeiro dia e fui pra rodoviária. Ali eu fiquei sentada esperando o ônibus voltar e alguém que pudesse ser a minha referência pra eu ter certeza de que não estava perdida. Depois eu passei a viver o Centro de Lajeado. Eu tinha facilidade de aprender. Eu sei fazer tudo: pão, crochê, eu limpo a casa, faço comida… Minha mãe sempre me ensinou as coisas. Coisas que parecem longe das dinâmicas da Cíntia. Eu digo isso pra Lívia - se tu não precisa fazer, não precisa. Mas precisa saber fazer, em algum momento tu pode precisar. Sempre tive tarefas a fazer. A mãe fazia as coisas de fora de casa, e eu e o mano as de dentro"


A faculdade

"Quando a Univates e outras instituições foram se apresentar eu não me via estudando fora. Pra mim a lógica era trabalhar e estudar. Trabalhar estava vinculado ao fato de não depender de ninguém. Nunca me veio isso de estudar longe. Quais são as minhas afinidades? A Matemática. Naquele momento eu achava que a Economia tenha mais a ver com a Matemática. O que fiz? O vestibular para a Ciências Econômicas aqui. Comecei em 1996. Em março. A turma inteira era composta por pessoas mais velhas, a maioria delas, homens. Eu, recém-saída do Ensino Médio. A matemática da fórmula de Bháskara pra mim era muito presente, pra eles a vida presente. Essa troca foi fantástica"


Início da vida profissional

"Eu comecei a estudar em março e ali comecei a fazer entrevistas de emprego. Eu lembro das minhas frustrações das primeiras, por não conseguir… Em setembro, a professora Vera Carvalho me convidou pra ser bolsista num projeto de pesquisa para fazer um diagnóstico em Encantado. A Univates tinha o que hoje são os Prédios 1, 3 e 5. No primeiro dia ela me colocou numa sala e disse pra eu fuçar no computador - eu tinha um curso de datilografia e um de informática, mas isso era distante da gente. Ali, de bolsista, virei estagiária, depois funcionária e profissionalmente isso segue. O que aconteceu lá em casa? Quando comecei a fazer Economia meu mundo começou a fazer assim (ela abre os braços em um gesto amplo). O embate com o meu pai começou a ser mais forte. Ele tem uma personalidade igualzinha a minha. O pai tem 65 e a mãe 63. Eles são bem novos. Quando eu saí de casa, durante o dia eu trabalhava aqui na Univates, de noite eu estudava e, nos fins de semana, trabalhava no shopping, na Central de Turismo. Isso me permitia pagar as contas. Eu não era a menina certinha que seguiu o que meu queria esperava. Minha família era conservadora. Imagina que eu, como estagiária, trabalhava no que hoje são as secretarias de centro da Univates. Eram duas pessoas para tudo. E eu ainda dividia minhas atividades com a secretaria do Codevat. Quando passei no concurso fui trabalhar na Secretaria de Educação - o antigo Atendimento ao Aluno"


Referências

"Nessa época eu já tinha um pouco do que aprendi com o Dinizar (Becker, ex-professor da Univates e ex-presidente do Codevat)... Muito do que eu sou, eu aprendi com ele. Só que isso não é uma coisa tranquila. Lá no início isso tudo era muito bruto, a minha personalidade.... O Dinizar me deixava voar e depois me defendia internamente. Ele faleceu em 2003. Muitas das minhas referências acabam ali. Tivemos contato com ele durante 8 anos"


As experiências em áreas distintas da Univates

"Eu fui mudando meus espaços. Eu sempre fui muito questionadora, isso vem do meu perfil. As visitas que hoje o Setor de Marketing faz nós começamos, na época, no setor de Vestibular. Eu incomodava os outros, mesmo sem ter noção. Saí daí e fui pra área acadêmica. Depois, fui pra área de Compras. Após algumas questões internas, me deixaram como coordenadora do setor durante um tempo. Estavam me testando. Aí durante um bom tempo fico na coordenação. Os processos burocráticos não são o que me atrai, mas a expertise da negociação, sim"


Carreira acadêmica

"Depois da graduação eu fiz uma especialização (em Cenários Econômicos, em 2004). O mestrado eu fiz entre 2006 e 2008. Em 2009 eu tenho a Lívia. Em 2010 eu descobri a Síndrome. Parei um pouco. Em 2014 eu passo no doutorado na Unisc. Terminei neste ano.

Em sala de aula não consigo compreender os alunos somente com uma formação teórica, sem conversa, sem mediação, sem contribuição para eles"


Pessoalidades

"Eu tive dois grandes relacionamentos. Um noivado de quatros e meio e, depois de doze anos de casada, uma separação no início deste ano. As pessoas que me conhecem não questionam as minhas decisões. Sabem que eu trabalhei com elas. A Lívia foi uma tomada de decisão. Fiz primeiro o mestrado. Fiz conta de quanto iria me custar. Sou muito mãezona. Sou uma leoa. Com ela isso é muito claro. Ela nasceu em 2009"


A filha

"Lívia me cobra presença quando está comigo, mas ela é muito eu nessa de se relacionar. Eu me reconheço muito nela. Nós somos muito próximas. Eu sou a mãe que xinga, que cuida e que brinca. Um dia ela disse: ‘mãe, a gente tem que levar pra escola algo que represente a mãe. Eu sei o que te representa: o salto alto!’ (conta rindo). É uma relação de cumplicidade. Eu não me entendo sem ela. Não entendo minha vida sem ela. Pra mim é muito claro: ela é minha prioridade, depois sou eu"


Quando voltou ao trabalho, Cíntia descobriu a Síndrome de Devic, doença inflamatória

"Naquela época, eu dava banho na Lívia sentada no chão, para ter uma ideia. Se algo acontecesse comigo eu precisava ter onde apoiar ela. Eu passei por isso sem parar de trabalhar. Eu não podia pensar na hipótese. Eu lia muito sobre a doença nos primeiros meses. Um dia eu chorei muito e decidi que não leria mais sobre por ser tudo muito trágico. Decidi confiar no meu médico. Hoje estou tratando a possibilidade de fazer uma redução de medicamento (que toma diariamente) de novo. Fiz uma redução há alguns anos. Eu resolvi fazer disso um marco para algumas coisas. Eu não convivo com a síndrome. Eu lembro dela quando tenho que contar. Comecei a fazer análise, também, há algum tempo. Quando vi que o quadro era esse, eu pensei: eu tenho uma filha, eu tenho uma história, eu tenho uma vida. Eu não vou perder isso"


O desenvolvimento regional

"Antes de 2008 o professor Ney me propõem que eu volte ao Codevat, numa função de secretaria executiva. Ele era o presidente. A gente fez uma transição da área de Compras para o Codevat. Assumo, além do Codevat, o Comitê Taquari-Antas. Ali me volto para uma ação mais direta na região. Assumi como presidente efetiva em 2013. Estou na terceira gestão hoje. Lá no início eu era bolsista de um projeto que tratava sobre a história do Vale do Taquari, minha formação em Economia, minha especialização… Sempre corri por dentro do tema do desenvolvimento regional. Eu nunca coloquei uma meta clara pra mim. As coisas aconteceram, por necessidade e por oportunidade. Foi assim quando comecei a dar aula. Não planejei. Primeiro a gente mostra o trabalho e quem a gente é, depois os resultados aparecem"


O trânsito em espaços complexos

"Na vida profissional eu tenho que lidar com coisas que, às vezes, eu não gostaria. Na pessoal, não. Eu tenho que fazer coisas que me deem prazer e me fazem bem. A minha postura desarma a postura machista com a qual às vezes lido. Sobre essa questão, é tudo muito sutil. Em poucas vezes eu tive que me posicionar efetivamente. Eu busco resolver. Meu senso de coletivo é muito forte. Minha fala é mais escutada porque é neutra. A fala dos outros é entendida como tendo lado. Se eu me associasse à política partidária, minha fala teria lado e as pessoas não me ouviram do mesmo jeito. E eu não suportaria não ser ouvida. Eu quero estar de bem com todos, mesmo que eu tenha que brigar com alguns às vezes"


O pessoal e profissional

"Sou professora, diretora administrativa do Tecnovates, presidente do Codevat e secretária do Fórum dos Coredes do RS. Já chega isso. Minha vida pessoal e profissional se misturam. Hoje eu consigo traduzir pra sociedade questões mais técnicas e políticas de uma maneira que eu dê conta. Cada vez que alguém me escreve e o deixam transparente o entendimento que têm de mim eu fico feliz e orgulhosa. Eu estou fazendo alguma coisa para as pessoas. E eu nem tenho a dimensão de tudo isso. Ser do bem é tentar fazer o bem. Eu posso errar, pode não ser o melhor caminho, mas é o caminho que eu trilhei"


*Lucas Goerge Wendt é jornalista e participou do primeiro curso de extensão em Escrita Criativa no Jornalismo realizado na Univates em junho de 2018.




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