• Rafael Gloria

Todo dia seria sexta-feira à noite

Ela chegou lá pelas 22 horas e foi embora por volta da meia-noite se segurando — quase caindo pelos lados e sorrindo de ponta a ponta — no pescoço de um cara que bem poderia ser o seu pai. Estava enfiada em um vestido bem curto, meio apertado e todo preto. Não sei o que os seus pés usavam, porque para eles nem olhei. Fixei observação em suas coxas, na tez branca lisa, na quantidade exata de pele em um espaço milimetricamente moldado. Tão jovem e tão bonita. E com um cara que poderia ser seu pai. Ainda mais um assim tão acabado, ainda mais um assim que segura o cigarro vagabundo com as pontas do dedo sujas. O cabelo mal emparelhado. Aposto que você nem sabia o nome. A cena era esdrúxula e repugnante, apesar disso, talvez por revolta própria ou talvez pelas coxas dela tão a mostra, acompanhei o passeio cambaleante dos dois e logo virei os olhos em sinal silencioso de reprovação…




Adélia, minha esposa, percebera todo o movimento dos meus olhos, que fugiam e voltavam para a coxa branca da desconhecida, acompanhando o seu trajeto até a saída. Por sinal, nossa cena era esdrúxula também: Adélia me observando e eu vislumbrando o bizarro casal.


Será que alguém observava Adélia?


Foi um ligeiro e premeditado tapa no meu braço que me fez voltar para a mesa do bar, para o casamento, para a instituição de fidelidade. O tapa também veio acompanhado da voz fina, agora temperada com um pouco de rancor: “me pega mais um drinque no bar”. E só. Nada de me chamar pelo nome, de falar com aquela voz meiga de quase bêbada que eu conheço tão bem. Só me empurrou o copo, que ostentava como um prêmio entre as várias marcas circulares de cerveja na mesa.


Segui quieto até o bar, tranquilizado pela promessa do que estava em troca: depois que pegasse a bebida, o rancor já teria passado, ela voltaria a beber e, como sempre, falaríamos da semana, e sobre os problemas dos nossos respectivos trabalhos. É assim que funciona. Adélia e eu costumamos sair toda sexta à noite para fugir da nossa rotina de casal recém oficializado e que namorou muitos anos antes de subir ao altar. Como se fosse possível criar um muro que dividisse as coisas.


O problema é que estava tudo se debatendo na minha cabeça, coxa branca, vestido apertado, dedos sujos, tapa, rancor. Felicidade premeditada. Cheguei ao barman mais próximo, perguntei as horas e da minha boca escapou, impulsivamente, uma pergunta que misturava tudo isso:


“aquela moça que saiu agora há pouco acompanhada com um cara mais velho… ela vem sempre aqui?”


Ele não entendeu de imediato, precisou de descrição mais detalhada sobre a aparência, o que vestia. Explanei várias características ainda tão vivas em minha mente e então o garçom acabou reconhecendo. Abanou com seu rosto inchado um gesto positivo. A via frequentemente, não toda noite, mas com certa assiduidade. “Fala espanhol misturado com português, parece que veio da Argentina, sabe como é. Sei que bebe todo tipo de bebida e toda noite sai com alguém diferente”. Foi o que disse, em exatas palavras.


Levei o copo cheio de cerveja de volta para nossa mesa, esperando (lá no fundo, depositando grandes esperanças) que a castelhana aparecesse, se enrolasse em meu pescoço e me levasse embora para terras onde ela bebesse, ficasse louca e tirasse o microvestido preto. E onde eu pudesse ver tudo, tudo. Todo dia seria sexta feira à noite.


Mas ela não estava por ali.


O que eu via era Adélia a minha frente, com o cotovelo encostado à mesa, a mão segurando o rosto, os olhos virados, fixados na mesa. Cabelo castanho desidratado e a cabeça, dançando suavemente com a música brega que toca no bar. Daqui a pouco iríamos conversar sobre a sua colega grávida. Ela dirá que foi uma imprudência, e que nunca deve se agir sem muita reflexão. Pensei em fugir com o copo de cerveja, correr atrás daquela coxa, implorar por um pouco de sórdida perversão.


Entreguei a bebida para Adélia, sentei, desviei os olhos da minha mulher, procurando a porta. Roubei um gole. Ela não parecia mais brava. Já estava naquele estado em que bastava que eu estivesse ao seu lado, como se só isso fosse o fundamental.


Talvez o motivo de todas as ilusões que a gente possa ter.


Então, deslizando o meu braço, olhando ao redor, ainda desejando que aquela coxa branca maluca e milimetricamente ajustada estivesse por perto, perguntei fixando nos olhos de minha esposa, quase como uma imposição, quase como uma ironia interna:


“amor, o que você acha de viajarmos para a Argentina?”

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