• Rafael Gloria

Sem data específica para voltar


Da última vez que eu vi Gustavo ele estava raivoso, mas também cheio de esperança. Chegava a ser bonito de perceber ali do meu lado uma pessoa com dois sentimentos tão distintos, lutando entre si. Era uma luta quieta, mas que, graças aos nossos meses de convivência, eu conseguia perceber. Caminhamos do jornal em que trabalhávamos até a avenida mais próxima em que ele pegaria o ônibus, e eu seguiria andando. O tempo era ameno e conversávamos sobre assuntos sérios, o que denotava uma aparência também séria a nossas expressões. Falávamos principalmente sobre o futuro e como pequenas ações podem, de certa forma, mudar tudo. As nuvens começavam a se aglomerar e o tempo já cantava a chuva que estava por cair. Estranhamente, chegamos rapidamente a parada do ônibus. Ficamos ali alguns minutos jogando conversa fora, reclamando de situações que não poderiam ter acontecido e que aconteceram. Gustavo aparentava ser duro, mas só aparentava. Aparentava ser raivoso, mas só aparentava. “Não guardo mágoas de nada”, ele disse. Nos cumprimentamos normalmente como dois amigos que se encontrarão no dia seguinte para uma cerveja, mesmo sabendo que amanhã ele iria viajar sem data específica para voltar.

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