• Rafael Gloria

Porto Alegre e Porto Alegre

Volta e meia fica ainda mais difícil de respirar na cidade que habito há trinta anos. Não digo só pelo clima cada vez mais extremo, ou muito quente, ou frio. Embora o extremo calor sempre pareça mais intenso.


Sinto que estamos cada vez mais em polos opostos.


É uma cidade que tenta se engolir frequentemente. Perdemos a capacidade de nos importar. Conosco, com os outros, cada vez mais afastados por falsos moralismos, ideias quase arcaicas de comportamento.


Há essa Porto Alegre que se estranha com o diferente, que não o abraça, e sim o maltrata, até quase tirar sua humanidade. Segue o caminho do Brasil nesse momento, pioneira talvez, pois gaúcho historicamente é bom em fornecer ao Brasil duas funções: ditadores e técnicos da seleção brasileira de futebol.


Às vezes, entretanto, volta e meia, contudo, e todas as outras conjunções adversativas juntas, surgem alternativas, e, como de praxe, elas sempre vêm pela arte, e dentro dela, pelos marginalizados, no sentido de estar à margem da “sociedade”, até da própria grande arte em geral.


Há essa Porto Alegre que volta e meia tende a ser engolida pela Porto Alegre asfixiante, mas que ainda resiste mesmo (estou cada vez mais encucado com essa palavra “resistência”, que agora parece que será adotada cada vez mais por campanhas de publicidade que sempre querem pegar uma parcela de tudo), porque são pessoas cuja vida é estar constantemente em conflito.


Conflito agora ainda mais evidenciado para aqueles que estão mais atentos a Era Bolsonaro que bate na nossa porta. E que vai literalmente contra tudo o que não é o “padrão” que esse governo acredita ser.


Tudo isso que escrevo não é novidade, mas é um pensamento que me persegue depois de assistir ao excelente Tinta Bruta, ontem em uma cinema da Casa de Cultura Mario Quintana. Um filme que mostra de forma clara essas duas cidades que habitam em Porto Alegre, e como elas podem ser reveladoras pela ótica das personagens que se encontram vivendo nessa eterna luta, nesse sentimento muitas vezes de medo, julgados só por serem quem são.



Porém daí também nasce a alegria de exatamente serem o que são, de serem verdadeiramente o que são.

Os personagens em Tinta Bruta podem estar escanteados pela opressão da Porto Alegre asfixiante, mas a maioria deles nunca deixa de se divertir, de usar seus corpos como expressão do que sentem, como trabalho, como vida. Por isso a última cena do filme é tão simbólica e importante: assumir suas cores em uma festa, a última redenção do personagem-protagonista que antes só conseguia dançar, se exibir em frente a uma gélida câmera de webcam. Não chega a ser uma celebração, mas é uma conquista, e isso para ele é muito importante.


Porto Alegre deveria se assumir, assumir suas cores, se conquistar novamente. Deveríamos olhar mais para o lado e perguntar: “Tem se sentido mais triste ou mais feliz?”.

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