• Rafael Gloria

Perdidos entre as paredes

“Eu vou contigo para onde tu quiser”, ela me diz meio bêbada, entre algumas latas de cerveja, que depois são espalhadas por nós rapidamente pelo assoalho de madeira. A música de mau gosto ainda passeia pelo ar. Assim como os nossos beijos que se misturam sem ordem, sem nexo, confundindo as peles, e contornando a boca, exalando liberdade. “Para onde eu quiser?”, respondo minguadamente, explorando uma futura possibilidade de acabar bem a noite. E ela confirma com a cabeça, em um movimento positivo meio torto, mas ao mesmo tempo tão singelo. Como se fosse verdade, como se ela estivesse apaixonada por mim desde o primeiro segundo que me viu. E nós nos conhecemos há apenas alguns minutos. Dou uma risada sem graça, pego o copo plástico branco, cheirando àquela cerveja barata e largo em sua mão. Nós rimos como duas crianças que não sabem exatamente o que estão fazendo. Lá fora a madrugada cada vez mais vai chamando a manhã e nós permanecemos definitivamente a sós, perdidos entre os tempos e as vontades.

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