• Rafael Gloria

Os vestígios que seguimos


Imagem ilustrativa

A primeira vez que eu vi alguém morto de verdade foi o meu avô, cerca de uns seis anos atrás. Ele tinha passado mal em casa e infartado, acabou entrando em coma no hospital. Ficou um pouco mais de uma semana e não resistiu. Eu acho que fui o único a não visitá-lo. Eu não queria vê-lo daquele modo.


Mas quando ele faleceu não sei porque diabos eu resolvi ir junto para ver o corpo. E ele não parecia ele, e sim uma espécie de boneco, inchado, o rosto estranho, já completamente distante. Mesma sensação eu tive depois, quando no velório, ele já estava “arrumado”, maquiado, padronizado para entrar no caixão. Quase um estranho.


Foi só quando em algum momento alguém trouxe a boina que ele costumeiramente usava e deixou perto dele. Uma marca registrada se eu fosse descrevê-lo como um personagem. Uma boina cinza. Foi aí que eu senti, que me debulhei em lágrimas, que eu caí, várias lembranças vieram. Porque são os vestígios que continuam a tocar as nossas vidas mesmo depois que elas se vão.


Essas espécies de senhas, de traços, de outros tempos, de afetos e desafetos ditados de longe, também são válidas para se entender as emoções, o espírito de uma época já passada, e que muitas vezes costumam ainda se perpetuar e ecoar até o momento em que vivemos. O passado realmente nunca vai embora, porque o tempo psicológico é diferente do tempo cronológico, este é ditado pelas horas inventadas pela humanidade para dar algum sentido narrativo ao que vivemos; aquele não, pois trabalha a um nível muito maior de intensidade, de marcas, do que nos torna frágil e forte.


Escrever sobre um passado não o tendo vivido é quase que fazer uma ficção a partir dessas linhas que continuam seguindo o mundo e que também se transformam e se desenrolam na mente de quem viveu aqueles acontecimentos. Ainda mais se você procurar fazer entrevistas com quem viveu aqueles momentos. É o meu caso na minha pesquisa de mestrado, em que estou tentando realizar uma História Cultural do periódico alternativo Coojornal, oriundo da primeira cooperativa de Jornalistas do Brasil, a Coojornal. Durou cerca de oito anos.


Das coincidências boas é que meu avô não era jornalista, mas era linotipista e trabalhou muito tempo fazendo jornal, desenhando com chumbo naquela época. Trabalhou no longo extinto Diários de Notícias, por exemplo. Se aposentou cedo, porque era um trabalho complicado. Se não me engano se aposentou com 45 anos. E viveu até os 82. Uma vida longa, e, provavelmente, cheia de vestígios para se seguir.

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