• Rafael Gloria

Os boletins do Coojornal: as origens de um jornal alternativo


Esse texto foi publicado originalmente no Caderno de Sábado, do Correio do Povo, no dia 24 de agosto de 2018.


Na última quinta-feira, 23 de agosto de 2018, completou-se 44 anos da assembleia realizada no salão nobre da Associação Rio-grandense de Imprensa em que 66 profissionais - a maioria jornalistas - formalizaram a constituição da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, a Coojornal. Entre os principais objetivos dessa união estavam a criação de alternativas para o escasso mercado de trabalho e, sobretudo, lançar um jornal próprio - que viria a levar o nome da Cooperativa, o Coojornal. Era o sonho do jornal dos jornalistas: um espaço em que se teria mais liberdade e independência para se publicar reportagens aprofundadas e, muitas vezes, de denúncia. Isso tudo em uma época marcada pelo autoritarismo e pela repressão da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), quando os jornais, do que ficou conhecido como a imprensa alternativa, cobravam a restauração da democracia e o respeito pelos direitos humanos.


A Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, pioneira e que acabou influenciando outros projetos semelhantes em âmbito nacional na década de 1970, foi tema de pesquisas de mestrado, de artigos científicos, de trabalhos de conclusão de curso, e de livros de participantes do empreendimento, como o “Em busca da sociedade transparente”, de Danilo Ucha, e “cooJORNAL- um jornal de jornalistas sob o regime militar”, uma organização de reportagens selecionadas por Rafael Guimaraens, Ayrton Centeno e Elmar Bones. Além disso há muito destaque para a cooperativa e o seu jornal na bibliografia da imprensa alternativa brasileira no período da ditadura civil-militar, cuja a bíblia referencial é o livro “Jornalistas e Revolucionários”, de Bernardo Kucinski.


Nota-se, portanto, que é um objeto consagrado também no âmbito acadêmico. Ao procurar as pesquisas que já tinham sido realizadas em meu caminho no mestrado na linha de Jornalismo e Produção Editorial do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Ufrgs, sob orientação da Profa. Dra. Cida Golin e coorientação da Profa. Dra. Aline Strelow, percebi que ainda havia uma lacuna: uma história contada especificamente do mensário Coojornal, ou a partir dele.


Jornalismo, cooperativa e ensino em pauta





O ponto de partida que gostaria de explorar aqui começa no dia 15 de novembro de 1975, a estreia do “Boletim da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre”, que circula ainda de forma restrita, principalmente, em redações, agências e faculdades, com uma pauta focada nas questões da área da comunicação de Porto Alegre (mas também com assuntos do interior do Rio Grande do Sul e do Brasil). É um “vestígio” pouco, ou quase nada, explorado na bibliografia do mensário, embora seja um material rico, pois nos ajuda a entender as origens dessa cooperativa, as motivações dos seus jornalistas e também a traçar um panorama da imprensa da época, tanto em termos de cobertura e de crítica, como do recente ensino nas universidades e a sua profissionalização.


Esse período dos Boletins envolve as primeiras oito edições do Coojornal, então, de novembro de 1975 a setembro de 1976. Importante lembrar que um pouco antes do lançamento, no dia 26 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, na época diretor da TV Cultura, é morto no DOI-CODI, com grande comoção nacional - o que se reflete no Boletim. Feita uma leitura extensa seguida de análise do conteúdo fica evidente que o jornalismo é tema central nesse primeiro momento do Coojornal. Há uma permanente discussão sobre o fazer jornalístico, a cobertura local e o questionamento sobre o atraso das empresas jornalísticas no Rio Grande do Sul. Dentro do debate da imprensa, há também as questões noticiosas sobre a programação e novas investidas de veículos gaúchos, como a manchete TV Guaíba: em outubro a nova imagem no ar, na segunda edição do boletim, que evidencia uma das transformações no jornalismo gaúcho da época: a entrada de conteúdo local para a televisão. Nessa mesma esteira, o boletim comentava também as novidades apuradas, funcionando como um verdadeiro informativo para profissionais da mídia.


Outro tópico ainda explorado é a questão feminista e que estava em discussão nos anos 1970 em consonância, dessa forma, com a conjuntura política e social de resistência. A chamada Uma redação com 35 feministas , da quinta edição, que leva a uma notícia sobre um novo jornal em regime cooperativo chamado Nós Mulheres , de São Paulo, evidencia esse fato. Há também muito destaque em suas manchetes de capa sobre profissionais da comunicação, quase sempre jornalistas, condições de demissão do trabalho. Como fica claro já na matéria da segunda edição, Os salários estão caindo. E não há vagas. Está é a situação em Porto Alegre. Inclusive um depoimento de um jovem Caco Barcellos, que teve que voltar a dirigir táxi para conseguir pagar as contas. A primeira edição traz também um grande destaque para as demissões no jornal Folha da Manhã , importante na trajetória do Coojornal, pois muitos jornalistas que fizeram parte da Cooperativa tiveram experiência anterior neste periódico.


O ensino do jornalismo nas faculdades é um tema que nos ajuda a compreender uma das principais transformações da conjuntura social para o boletim na época: a profissionalização do jornalismo. Havia críticas ao ensino das faculdade de jornalismo da PUCRS e da UFRGS, sobre as aulas e a participação maior dos estudantes no curso. Ao dar espaço a notícias de âmbito universitário e de ensino do jornalismo, entrevistando professores e alunos, fica evidente a forte ligação dos universitários com a cooperativa, que valorizava o diploma universitário. Além disso, havia também uma preocupação em passar informações sobre a própria Cooperativa dos Jornalistas, afinal, o Boletim era um meio dos cooperativados se informar sobre as novidades do empreendimento.


Ainda havia espaço para as cartas dos leitores que tinham um grande destaque ao longo da coluna da esquerda ao lado da foto de capa. São críticas e sugestões enviadas por cooperativados, ou não, e também servem como espaço para a discussão de polêmicas da época, envolvendo matérias jornalísticas publicadas por veículos de imprensa do Rio Grande do Sul. Se vivemos em um momento em que cada vez mais a participação do público, seja em qualquer plataforma, é incentivada, naquela época muitas pessoas queriam um espaço para falar e não tinham, ainda mais com a censura do regime militar.


Os cartuns também dominavam as páginas dos boletins, assim como seguiram aparecendo ao longo da trajetória do Coojornal. Na última edição do boletim, a capa é o cartum 280 sem patrão , que traz uma longa canoa com várias pessoas remando ao mesmo tempo, simbolizando o espírito da cooperativa. É o primeiro cartum em uma capa do Coojornal e é assinado por Fraga.


A época em que surgiu a Cooperativa, e em seguida o boletim, é considerada o começo da abertura “lenta, segura e gradual”, mas o clima na redação dos jornais era o da completa auto-censura e da falta de liberdade. As suas páginas traziam uma discussão sufocada para esses jornalistas da grande imprensa e que não era encontrada em mais nenhum outro local naquela época, pelo menos em Porto Alegre. Por isso, seu sucesso de circulação foi rápido, saltando de cerca de mil exemplares para quatro mil na última edição e incentivando a criação do mensário de reportagens. Inclusive circulando em outros estados, de mão em mão, com jornalistas gaúchos levando para as redações do Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo.


Nesse primeiro momento, o jornal não trazia reportagens de denúncias contra o regime ditatorial, apesar de o Coojornal ser considerado um dos grandes expoentes do jornalismo alternativo no Brasil - as influências, de modo geral, na conjuntura econômica e social da época no boletim são as grandes empresas de jornalismo do Rio Grande do Sul. As quais acabavam ganhando espaço nas páginas muitas vezes de forma crítica. Entretanto, nunca deixavam de divulgar os novos jornais alternativos que surgiam aos montes na época.

É interessante frisar também como na primeira edição, em um texto muito semelhante a um editorial, o grupo avisa que estava planejando o jornal da Cooperativa, então, pode-se inferir que o boletim não era visto como um jornal, um veículo próprio, mas sim como um informativo, como uma espécie de laboratório para discutir questões de forma analítica ligadas ao jornalismo no Rio Grande do Sul.


O boletim, então, foi esse espaço para as dúvidas e aflições dos jornalistas que tentavam entender o que estavam fazendo com a cooperativa e como poderiam realizar um trabalho de modo independente e sem amarras. Um laboratório, um embrião, de jornal que se encontrou no tempo.


Obs: Para quem se interessar mais, o Núcleo de Pesquisa em Ciências da Comunicação da Pucrs está digitalizando todas as edições do Coojornal.


*Jornalista, editor-fundador do Nonada-Jornalismo Travessia e mestrando em Comunicação na Ufrgs

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