• Rafael Gloria

O último dos livreiros


Edgardo Xavier (Crédito: Jonathan Heckler/JC)

*Esse perfil foi escrito para a cobertura da Feira do Livro, do Jornal do Comércio, de 2014. Na época, o livreiro Edgardo Xavier ainda estava vivo. Faleceu semanas depois. Ele também pode ser encontrado nesse link: http://jcrs.uol.com.br/site/not_esp.php?codn=177897


Sentado, com a barba por fazer e o inseparável aparelho de oxigênio sempre ligado. Desse jeito, até parece que o tempo finalmente atingiu Edgardo Xavier, prestes a completar 92 anos (em 12 de dezembro). Ele é único remanescente da turma de livreiros fundadores da Feira do Livro de Porto Alegre em 1955. Mas só parece. O português nascido no bairro de Alfema, na cidade de Lisboa, leva a vida de uma forma digna dos seus conterrâneos desbravadores dos mares que buscavam um novo mundo séculos atrás.


Xavier chegou ao Rio de Janeiro em 1951 e, apesar de nunca esquecer aquela madrugada em que viu a orla marítima de Copacabana iluminada pela primeira vez, acabou fixando residência em Porto Alegre, um punhado de anos mais tarde, em 1954. Cidade em que assumiu a função que levaria para o resto da sua vida: a de livreiro.


Sua paixão pelo livro, entretanto, vem da infância, bem de antes de sair de Portugal por não concordar com o governo autoritário de António de Oliveira Salazar. “ “Minha família não tinha dinheiro para viajar nas férias, então a única maneira de me manter quieto era me dar um livro””, relembra. Costumava consumir muita literatura francesa, motivado pelas aulas do idioma na escola. Acabou pegando afeto pelo país, que sonhava conhecer. Mal sabia ele que esse aprendizado adiantado ajudaria a tomar as rédeas de sua vida mais tarde.


Definindo-se como um homem que sempre detestou a rotina, Edgardo Xavier nunca se imaginou trabalhando em um escritório, trancado entre quatro paredes. Mas foi exatamente essa a primeira oportunidade que surgiu quando ele chegou ao Rio. Como bom aventureiro, ele abraçou a oferta. “”Eu trabalhava numa casa de louças e cristais e um dia duas senhoras francesas entraram na loja e ninguém conseguia atendê-las. Então, eles (os donos) se lembraram do português que falava francês””, explica. Acontece que as freguesas eram secretárias da embaixada francesa e, encantadas, contrataram Xavier para atuar na representação diplomática. Ele não ficou muito tempo no novo emprego, porque logo viu um anúncio no jornal que procurava por “um livreiro fluente em língua francesa” para trabalhar em Porto Alegre.


“Nunca tinha exercido aquela profissão, mas, como desde os 11 anos estou ligado ao livro por amor, resolvi tentar e fui o escolhido entre 16 concorrentes”, explica. Na segunda-feira, após ser contratado, ele adentrou a Livraria Leonardo da Vinci sem experiência na função e sem saber nada sobre a cidade. “Uma loucura”, ele exclama com os olhos rememorando o passado. “Contudo, me fez muito bem, aprendi rapidamente a função e frequentemente viajava para outras cidades a fim de fazer negócios”, complementa. Em Porto Alegre, a primeira coisa que Xavier fez foi desbravar o bairro Praia de Belas que, na época, ainda não era aterrado.


Chegando lá, foi surpreendido por um grupo de pessoas empunhando bandeiras brancas e vermelhas — do Sport Club Internacional. ““Lembro-me de achar aquilo deveras curioso, porque eram as mesmas cores do clube de Futebol Benfica, do qual atuei como atleta de rugby durante uns quatro anos””, relata. A identificação com a cidade, percebe-se, foi quase que imediata.


Na livraria Leonardo Da Vinci, que tinha sede na avenida Salgado Filho, reuniam-se escritores e intelectuais da época, como Mario Quintana e Erico Verissimo, atraídos pelos últimos lançamentos em língua francesa e portuguesa, especialidades do estabelecimento. “Hoje é comum, mas, na época, fui o primeiro a fazer eventos em uma livraria: lançamentos, tarde de autógrafos, exposições e teatro”, explica. Com o advento da Feira do Livro de Porto Alegre, em 1955, as livrarias foram para as ruas, aproximando-se mais do público. Para Xavier, esse é um dos grandes motivos por ela ter dado tão certo. “A feira ainda alcança a proposta inicial, que é pôr o povo em contato com o livro. Antigamente havia um certo receio em entrar nas livrarias, como se fosse templo religioso, mas a feira democratizou isso”, acredita.


Em sua avaliação, uma das mudanças é que antigamente o caráter de confraternização entre os livreiros era maior. “”Hoje, o comércio impera, mas tudo muda. Não tem mais como ser daquele jeito com a quantidade atual de expositores e barracas””, afirma. Xavier lembra que, antes, ocorria uma festa no fim do evento, organizada por ele, que envolvia todos que trabalharam na feira. “Ia do diretor ao mais humilde dos carregadores, era muito bonito”, afirma. É neste momento de lembranças que ele busca uma fotografia em uma pasta de recordações. Na imagem estão seis livreiros, que parecem se divertir usando perucas imitando a figura clássica do juiz de direito, em um momento de descontração durante a festa. “Sabe qual é a tristeza? O único que não morreu aqui fui eu”, aponta. O livro da moda, naquela ocasião, foi O advogado do diabo, romance do escritor australiano Morris West publicado em 1959, daí as perucas. Em outra fotografia, que ilustra essa página, aparece a saudosa banca da Leonardo da Vinci.


E o livreiro que esteve em todas as Feiras do Livro de Porto Alegre dificilmente vai poder comparecer na sexagésima edição devido aos problemas de saúde. “Meu médico quer que eu vá, mas eu teria que levar o aparelho respiratório junto. Tenho um horror a piedade e, absolutamente, não quero inspirar isso nos outros”, revela Xavier. Ele recorda as palavras do seu conterrâneo, o poeta Fernando Pessoa, também um desbravador, ao parafrasear trecho do poema Lisboa revisitada justificando, lamentavelmente, a sua ausência: “vão sem mim/ ou me deixem-me ir sozinho/ não há razão para eu ir junto”, finaliza.

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