• Rafael Gloria

Memórias - I

Cresci em um pequeno bairro em um morro na cidade de Porto Alegre chamado Santo Antônio. Ganhou esse nome devido a igreja, espécie de centro do local, composta também por um complexo da congregação franciscana que toma um espaço considerável da rua Paulino Chaves. Perpendicular a essa, há a rua em que morei boa parte da minha vida: a Thomas Edison, que é sem saída - e acho que esse fato sempre foi marcante para mim. Por não ter movimento de deslocamento entre diferentes logradouros quase se passava por um condomínio fechado. Muitos vizinhos antigos, muita história rondava a vida das pessoas. Para completar, a escola que estudei ficava na esquina da minha rua, então, meu universo por muito tempo foi aquele bairro, aquelas pessoas, a procissão de Santo Antônio todo dia 13 de junho, a minha família, as duas casas em que cresci - a dos meus avós, e a dos meus pais, que dividiam o mesmo terreno.


Com o tempo, fui conhecendo outras partes do bairro, a Luís de Camões que acaba na Padre Antônio Vieira - na época, não entendia a conexão. Um dos poucos ônibus que passa diretamente por lá se chama Caldre Fião, mais uma referência que só pegaria mais tarde na minha vida. Lembro das pequenas vendas, de uma em particular, a do seu Romildo, vizinho quase de frente à minha casa e que, de certa forma, detinha uma espécie de poder, pois parecia ter informação de todos os outros moradores. Me lembro dos seus filhos, da sua esposa e de uma figura mais velha que ele, a qual todo mundo chamava de “tio”. Usava uma boina e tinha um sotaque típicos dos colonos do interior do estado. Aliás, eles também vendiam garrafão de vinho, daqueles de cinco litros. Muitas vezes frequentei o bar para comprar vários itens a pedido da minha família, e me lembro de colocar na “conta”.


Mas a rua Thomas Edison era muito comprida e parecia nela caber um microuniverso, quem a frequentasse uma vez só não ia perceber todas as suas nuances. Na sua entrada, havia também um centro para deficientes visuais e auditivos. Logo mais, uma faculdade de teologia, cercada por um grande muro com pedras muito pesadas e um imponente portão de ferro pintado de cor amarela. Lembro-me de encarar aquilo quase como uma prisão, que me despertava muita curiosidade. Era uma rua composta basicamente por casas, sem prédios, o que lhe dava um aspecto antigo. Muitas residências de todos os tipos, a maioria pequenas, mas consistentes, com grandes entradas, pátios largos, cachorros latindo para os “estrangeiros” que ousavam entrar na rua. Não era asfaltada, e sim com aquelas pedras antigas, então, se sabia quando havia movimentos de carros.


Mesmo sendo uma rua sem saída havia outros caminhos para chegar e cair fora dela. No final da rua, tinha uma escadaria, que fazia uma conexão direta com a Padre Antônio Vieira, ou a Doutor Malheiros, então, era uma espécie de corta caminho. Mais tarde, também foi feita uma escada para a rua “de cima”, chamada Delfino Riet, onde fica até hoje o complexo da Rede Bandeirantes em Porto Alegre. Algo que eu sempre achei curioso, meio deslocado do bairro. Só mais tarde fui entender como funcionava as transmissões e que uma rede desse tipo precisa estar em locais altos da cidade, pelo menos naqueles tempos.


Trata-se de uma rua que ficava em um bairro fora do centro, mas que também não era na periferia da cidade. Mais abaixo ficava a Avenida Bento Gonçalves e do outro lado a Avenida Oscar Pereira. Mas durante o período da minha infância e adolescência principalmente foi nesse ambiente que cresci.


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