• Rafael Gloria

Josué, o mineiro que se agigantou


Crédito: Lídia Brancher

Josué era baixinho. Quando tinha quinze anos de idade parecia ter muito menos. E quando você tem muito menos que os outros, sempre deseja muito mais. Especialmente para ele, crescendo em uma cidadezinha que não lhe dava nenhuma oportunidade no interior do Rio Grande do Sul no início da década de 30. Os outros ainda tiravam sarro porque além de ser baixinho era corpulento. Foi por essa época que ganhou o apelido de “tronco”. Mas a troça ficava por aí. Como não tinha muitas oportunidades, com o passar dos anos acabou tendo o mesmo destino do pai, trabalhando como agricultor, ajudando na lida da roça. Foi ganhando força, foi ganhando vontade, foi ganhando consciência do que poderia fazer. Mas o campo oferecia pouco e não demorou a oferecer nada.


Em uma época de estruturação do capitalismo no Brasil, na primeira Era Vargas, a indústria do campo também acabou se modernizando, equipando-se com maquinários, e necessitando cada vez menos de mão de obra. Mas Josué nem sabia nada disso. Como consequência de algo muito maior que ele, acabou sem trabalho na agricultura e sem perspectiva. E o primeiro filho estava por vir. Finalmente tinha conseguido casar depois de trocar muitos olhares com a vizinha por quem tinha um carinho especial desde que eram crianças. Quando via Elenara, sentia que queimava por dentro. Não sabia explicar muito bem o que era esse sentimento, mas estava lá. Foi em um desses bailes antigos da comunidade de sua cidade natal onde acabou finalmente tendo a oportunidade da dança. E depois todo o resto veio de um modo rápido e muito natural. Como fora antes com o seu pai e o seu avô.


Parecia certo: ambos se assemelhavam muito. Além de serem baixinhos, almejavam outro tipo de vida, queriam sair daquele “fim de mundo”. Não teriam futuro lá, muito menos o filho João que já se exibia em uma crescente barriga de cinco meses. Era para nascer em dezembro, e a mente dos dois já começava a fervilhar, pensando se deveriam ou não viajar para Porto Alegre. Josué ouviu boatos de operário que ganhava até 11 mil réis pela diária nas Indústrias Renner. Imagina, ganhar tudo isso por mês. Era outro mundo. Era o que eles precisavam. Mas foi Elenara que chegou com a grande novidade em casa depois de voltar de uma ida rápida à venda local.


Um grupo de três pessoas havia montado uma barraca improvisada no centro da praça e divulgavam o que parecia ser a solução do problema: um trabalho que pagava 14 mil réis pela diária. Mais que em Porto Alegre! O trabalho, ela até não entendera muito bem, porém a possibilidade de mudar de vida tomou o seu corpo e fez as suas pernas correrem de volta para Josué, cujas pernas também se empolgaram com a notícia e o levaram ao encontro do grupo no centro da praça. A conversa foi promissora, até que rápida, porque ele tinha exatamente o perfil que eles buscavam para o trabalho. Seus 1,63 m compensaram.


O que se sucedeu também foi rápido, dentro de alguns dias tomavam o caminho para a nova comunidade, uma tal de São Jerônimo, que prosperava graças ao carvão. A situação mudaria, eles pensavam, a promessa era de moradia, alimentação, assistência médica e religiosa, lazer e créditos pela empresa carbonífera. Tudo isso para ficar debaixo da terra.


No subterrâneo


O espaço é pequeno. O túnel que liga as galerias em uma mina é muito estreito, quase não cabe uma pessoa. É preciso percorrer vários quilômetros em linha reta, muitas vezes em plena escuridão. E o calor. Ah, o calor. E ainda as pedras encravando na pele, deixando tudo um pouco mais sofrido. Ser mineiro não é fácil, mas Josué segue na labuta diariamente, com pressão de todos os lados. A família agora aumentou, depois do João, veio o Matheus e tem mais um na barriga. Tomara que seja menina, ele pensa. Bem que podia ser menina, ele fala, enquanto conversa com o colega, em uma das poucas folgas. A rotina não é nada animadora, já sente as contas na venda acumulando. O alto salário era rapidamente descontado pela cooperativa mantida pela empresa de carvão. No fim, a promessa não se cumpria. O sistema era quase que fechado, viviam em uma vila isolada, com a empresa fornecendo habitação, alimentação e todo o resto. Um sistema sem abertura para sair.


Em 1936, ser mineiro é não ter certeza de nada. Elenara em casa se prende em rezar para Santa Bárbara, a padroeira universal da profissão. Já são três anos trabalhando seguido, os pulmões começam a complicar. O medo da bronquite é estridente. Todo dia o beijo de despedida, que termina sempre com a promessa de proteção da santa, como se o embalasse em um invólucro composto por prece.


Josué aprendeu com os mais velhos que só há duas garantias quando se está lá embaixo. A primeira é analisar o ambiente, normalmente o local era tomado de ratos gigantes, que roubavam a comida dos mineiros. Com o tempo, entretanto, acabavam se acostumando, e as espécies faziam companhia uma à outra. O segredo era ficar atento ao movimento das inúmeras baratas: elas acabavam tomando conta dos prumos de madeira que seguravam a galeria. Se corressem e se espalhassem desordenadas, era sinal de uma possível enchente ou desmoronamento. Já tinha acontecido algumas vezes com colegas. Com Josué ainda não. Nenhum acidente nesse tempo de trabalho embaixo da terra. Reza boa, diziam.


A segunda garantia era a cumplicidade, a parceria entre os mineiros, porque todos dependiam um do outro, caso acontecesse algum problema. Eles dividiam até uma espécie de trote de iniciação para os novos que chegavam para trabalhar. Aplicavam brincadeiras, davam apelidos e realmente azucrinavam os camaradas. Uma válvula de escape para não se perder na escuridão. Josué ainda se lembra da pegadinha que fizeram quando apareceu pela primeira vez para trabalhar na mina. Estava meio perdido e ainda se adaptando. Sempre fora um agricultor, acostumado a trabalhar no campo, a respeitar os caminhos da natureza. Sentiu um baque quando teve que descer a uma galeria pela primeira vez. A escuridão, a falta de noção do tempo. Logo nesse primeiro dia, já chegaram o intimando a pegar uma “lebreira”. Mas o que era uma lebreira? Aprendeu da pior forma: tratava-se de uma caixa com roda que transportava carvão com rolamento, corria de modo muito danado.


Os colegas pregaram uma peça justamente no medo de todo o conteúdo da lebreira cair sob as suas cabeças. Ficou brabo de início, mas entendeu o espírito e rapidamente foi se adaptando.


Nada conseguia ser melhor do que o fim do turno puxado. Quando conseguia voltar para casa, tirava o habitual boné de couro da cabeça e abandonava aquele ar carregado de carvão das minas. Tinha um pouco de lazer com um ocasional baile local, ou as partidas de futebol no fim de semana, mas as preocupações...essas nunca cessavam. A dívida com a cooperativa só aumentava e ele não via outra possibilidade a não ser fazer horas extras. Produzir mais carvão para ganhar mais.

Procissão de cinzas


Por volta das quatro horas da tarde do dia 10 de setembro todos os mineiros foram saindo pouco a pouco das galerias, parando o trabalho. Tal como uma procissão, eles marchavam de modo lento. As velhas roupas espalhavam cinzas e restos de carvão por onde passavam deixando um rastro. Quietos, desanimados, incomodados. De repente, na pequena multidão, aponta um corpo desfigurado. Ele é carregado por vários braços. Não importa de quem. Todos são mineiros. Todos mortos naquele momento. Agora não tem patrão para mandar continuar o trabalho, não tem apito para comandar o horário da mina. Josué vê toda a cena, chegara há pouco tempo no local. Se dá conta de que poderia ser ele a ser carregado pelos camaradas e tenta se informar de todo modo para saber o que aconteceu.


Esbarrou em um conhecido mais revoltado que cabisbaixo, cumprimentou o companheiro e foi logo perguntando o ocorrido. Afrânio, o tal colega, relatou gesticulando de modo alterado o acidente fatal. Segundo ele, o falecido estava em um turno direto de 24 horas e já não tinha mais os mesmos sentidos. O mineiro trabalhava em uma galeria de saída de ar, no fundo da mina, e acabou tendo parte do corpo desfigurado por um tronco de madeira forte, usado para manter as estruturas. Parece que agonizou por um tempo, até morrer de verdade. Ser mineiro é ter a morte como companhia, não podia se esquecer disso. E Josué já sabia o procedimento. Quando acontecia algum desastre, os mineiros decretavam feriado. Enquanto o companheiro não fosse sepultado, as atividades não eram retomadas. Era a única maneira de chamar a atenção dos patrões: parar a produção.


Acabou voltando para casa e encontrou uma Elenara ainda mais aflita do que o normal. Explicou rapidamente o que aconteceu, sem dar mais detalhes para não enjoar a esposa. Mas afigura do corpo ensanguentando não saía da sua cabeça. Em breve, seria ele também fazendo turno de 24 horas sem sair da mina para ganhar mais dinheiro e poder pagar os gastos com a cooperativa. O sangue no chão do companheiro também lhe pertencia, assim como as cinzas espalhadas pela procissão e a fome dos filhos. O que poderia fazer? Deveria continuar trabalhando em um esquema desse tipo? Não poderia sair agora, já devia muito. Começava a se dar a real conta da situação. A vila dos operários, também mantida pela empresa, não era grande coisa. Várias casinhas iguais, de madeira, uma pequena área...Uma ilusão de liberdade. Uma prisão, um cativeiro, uma dívida crescente e eterna.


Onde ele foi se meter?


Não conseguiu ficar parado em casa, sabia que precisava estar com os outros mineiros. Precisava correr de volta, correr por mais possibilidades. Chegando lá percebeu um grande grupo que começava a se reunir. Alguns gritavam palavras de protesto. Os acidentes não poderiam continuar, alguma coisa deveria ser feita. A sensação era a mesma e tomava a massa de mineiros. Uma sensação de medo, uma sensação de insegurança mas também uma sensação cheia de vontades, antes abafadas. Agora elas saíam pela boca, tímidas, ou altas, em bom som. Conversavam e se articulavam. Juntos tentavam pensar melhor. Se eles davam a possibilidade de extrair energia para os outros usufruírem, por que eles não poderiam usufruir um pouco disso também? Esse pensamento passava pela cabeça do baixinho Josué e o estimulou a subir em um pequeno palanque improvisado formado por uma grande pedra. Começava a se agigantar em seu discurso. Descobria que tinha voz. Cada vez mais, cada vez maior, suas palavras eram escutadas e seguidas por um silêncio pequeno seguido de gritos de apoio. Sim, se ninguém nos escuta, eles vão ter que sentir. Se ninguém se importa, que saibam que nos importamos. Sim, era preciso lutar. É preciso lutar.

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