• Rafael Gloria

Eu lembro da guria bonita da praia de Arroio Teixeira

Atualizado: 8 de jan. de 2019

Lembrar é algo engraçado. Não sabemos o que vai ficar dos outros em nós, dos locais em nós. Às vezes achamos que não fica nada, mas, mesmo que não percebamos, sempre há. E muito do que permanece não é racionalizado necessariamente: um cheiro, uma sensação, um medo, uma felicidade, uma mania. São memórias também, pois tudo isso é (foi) verdade para àquelas pessoas.


Eu lembro muito da praia de Arroio de Teixeira, litoral gaúcho, da casa dos meus avós e de passar muito tempo do verão por lá quando era criança e adolescente. Me lembro de amar aquele lugar e depois de não gostar mais tanto, que preferia ficar na cidade. Hoje eu sinto falta daquela sensação de liberdade e de tempo parado. Das tardes de jogatina em arcades, do mar, da ideia de andar de bicicleta sem ficar com neuras e perigos constantes.


O ar era diferente? Provavelmente não, mas na minha cabeça sim, e é o que importa.


E eu lembro muito também da menina de Arroio de Teixeira que por muito tempo povoou minha imaginação pré-adolescente de vênus em peixes, rodeada por idealizações e receios e medos sem sentido agora para mim, mas que na época faziam sentido o suficiente para me impedir de fazer qualquer coisa. Não lembro exatamente do seu rosto, mas das cores que usava nas roupas, da pele e das sensações que me despertava. Só isso basta agora mais de quinze anos depois.


A mente trabalha sempre de maneiras diferentes, dispersiva, prefiro acreditar que há um sentido que não conhecemos em nosso caos e que a nossa busca na vida passa também por tentar entender isso. A aprender a controlar a nossa narrativa. As lembranças são uma espécie de fio condutor, um espelho torto que o caos nos dá de presente.

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