• Rafael Gloria

Eu, jornalista cultural

Está rolando uma brincadeira bem interessante no Twitter, em que a cada like no tweet as pessoas contam uma situação curiosa sobre a sua profissão ou algo da sua vida, ou ainda um acontecimento - vai que interesse alguém, né. Resolvi entrar na brincadeira uns dias atrás, falando sobre a vida do jornalista cultural. Deu 36 curiosidades, ideias, rotinas, enfim, e acho que vale compilar e colocar aqui no site. O post original tá aqui.


1 - Em tese, recebemos muito material de assessoria de imprensa sim, desde ingressos, convites a eventos, viagens, etc...Mas é preciso sempre manter a nossa independência, acima de tudo. Por isso que o jornalismo cultural é uma das áreas mais "nebulosas" nesse sentido.


2 - As pessoas têm a tendência a pensar que o jornalista deve estar bem informado de tudo. Não. Assim como em qualquer outra área há especialidades. E dentro do próprio jornalismo cultural também há, portanto, não vamos saber necessariamente tudo sobre lançamentos, autores, etc.


3 - Sempre foi a área que eu quis trabalhar, desde que entrei no jornalismo. Consegui um estágio no Jornal do Comércio em 2009, lembro do texto que eu tinha que fazer,era uma notícia sobre um show da cantora Céu. Acho que no mesmo dia ou um dia depois me ligaram, me senti muito feliz na época.


4 - Uma vez fui entrevistar um artista plástico e não tinha conseguido me preparar direito. Ele percebeu minha desatenção. Então, resolvi falar a verdade. Para minha surpresa, ele entendeu e se abriu, começou a falar do trabalho e até me deu um livro (faz parte, nem sempre estamos bem).


5 - Cultura não é só "produtos culturais"! É uma palavra gigante e cabe a nós jornalistas da área estudá-la e buscar contemplá-la em toda a sua diversidade. Acho que aí cabe o nosso desafio. Ainda mais em um mundo que tenta abafar diversas lutas. Jornalismo Cultural é isso também.


6 - Ao mesmo tempo, acho que é uma área apaixonante justamente porque mexe com as paixões das pessoas, com a relação delas com objetos artísticos que as marcaram! E é muito legal, é muito massa trocar ideias com outros colegas e com pessoas que tentam organizar e dar sentido a isso.


7 - Uma vez entrevistei o Rogério Flausino, vocalista do Jota Quest, e achei que ele seria meio babaca e tal, mas foi bem simpático e no final da conversa já estávamos "brothers".


8 - Jornalista Cultural que trabalha em redação tende a receber muito release e os mais abstratos sempre tendem a ser os de artes visuais, ainda mais aqueles que não contratam assessorias. De modo geral, quem trabalha em redação não tem muito tempo, por isso é bom ser objetivo na hora!


9 - Uma crítica/resenha não é boa só porque você concordou com ela. A ideia da boa crítica é ir além do objeto, ou pelo menos fazer refletir, por objeto em questão. Logo, se o jornalista não gostou do filme e tiver argumentos, tente responder com argumentos tb, não com ofensas.


10 - Por que especificamente "jornalista cultural"? Para mostrar que existimos,, apesar de ser uma profissão complicada, já que a cultura é desvalorizada em vários setores, inclusive no jornalismo. Acredito que também está se transformando, e temos que acompanhar essas mudanças de formato


11 - É importante se juntar com outras pessoas que tenham um interesse semelhante ao seu e tentar tocar algum projeto juntos. O @nonadatravessia fará seu nono ano em setembro e está cada vez mais forte e solidificado. Jornalismo se faz em conjunto, ainda mais o cultural.


12 - Em uma cobertura do Festival de Gramado, eu perdi o ônibus que ia me levar para Porto Alegre devido ao último filme terminar muito tarde (filme bem ruim, aliás) e fiquei vagando de madrugada pela cidade, até conseguir ajuda de um morador muito solícito.


13 - Mesmo tímido, sempre fui de meter a cara a tapa e em 2016 comecei a dar oficinas, e a primeira foi de Jornalismo Cultural. Teve bastante gente para minha surpresa, e, entre eles, o Frank Jorge. Então, eu estava começando e o cara um artista com uma baita experiência, mas foi mt bacana, ele ajudou muito.


14 - Aliás, já dei quatro oficinas de jornalismo cultural. Em uma delas com quatro inscritos (prefiro turmas pequenas), e uma vez só pôde vir uma pessoa (época da greve dos caminhoneiros). Não importa, o que importa é "espalhar a palavra"!


15 - Jornalismo Cultural não é para ser a "área" leve do jornalismo. Claro, pode ser isso, porém é local para se tratar de temas sisudos também. Um orgulho meu é ter feito entrevistas com os candidatos a governo e prefeitura nas duas últimas eleições, com questões na área cultural e direitos humanos.


16 - Show. Show. Show. Ser jornalista cultural me deu a oportunidade de ir a muitos shows. De vários tipos. E acho que ainda se peca muito na cobertura deles. É o espaço para fazer um texto diferente, se colocar, observar o público. Cada show é único mesmo que seja um show repetido.


17 - No jornalismo é tradição aprender muito com os colegas e tive muita sorte nesse sentido de ter pessoas com grande experiência sendo meus chefes e tendo paciência para ensinar ou que eu pude aprender só de observar. Tenho e tive ótimos exemplos no jornalismo cultural ao longo do tempo.


18 - Acho que somos boas companhias para os mais diversos rolês culturais.


19 - Cuidado para não colocar o seu gosto acima do interesse público. Pode acontecer, e é claro que passa por nossa subjetividade escolher as pautas, mas não se deve dar espaço apenas para o que "gostamos".


20 - Jornalistas amam cafés, jornalistas culturais talvez gostem ainda mais (lembremos que foi nos cafés que o jornalismo cultural começou a se "popularizar").


21 - Nada de divisão entre "alta" cultura e "baixa" cultura", táokei?


22 - Já fiz horóscopo de jornal, não inventei, mas a gente recebia o horóscopo de um profissional e tinha que editar para caber. Às vezes se mudava algo, então, nunca dá para confiar mesmo em horóscopo de jornal diário.


23 - A primeira matéria que eu fiz para um jornal impresso foi sobre os 25 anos da peça "Bailei na Curva", em 2008 para o Jornal da Universidade (Ufrgs).


24 - Uma das coisas legais de ser jornalista cultural é poder ver (receber) lançamentos antes. Há cabines de imprensas, receber livros, álbuns, etc, Mas tudo isso é trabalho também, não é lazer.


25 - Precisamos falar sobre apuração no Jornalismo Cultural. É preciso investir em reportagem também, e não só cobertura analítica e agenda. Jornalistas culturais também devem fazer jornalismo.


26 - Uma das reportagens que mais tenho orgulho de ter feito foi sobre o abandono do Museu do Carvão, em Arroio dos Ratos. Local fora de Porto Alegre, patrimônio público, histórico. É necessário que o jornalismo cultural invista em pautas assim.


27 - Outro texto que eu gosto bastante é um perfil que fiz de um dos fundadores da Feira do Livro de Porto Alegre, o Edgardo Xavier...Semanas depois ele faleceu. Foi uma das últimas matérias com ele.


28 - Aliás, também faço oficinas de "Escrita Criativa no Jornalismo", já foram cinco edições e uma em caráter de extensão, na Univates. Também uma ideia para o jornalismo cultural, um espaço em que acredito que possamos "arriscar" mais.


29 - Falando em Feira do Livro participei de várias coberturas, algumas como repórter de jornal e agora recentemente como assessoria de imprensa. Um dos momentos "hard news" da Cultura, pois a cobertura rápida pega mais forte.


30 - O mundo é grande, as culturas são várias e diferentes, bons profissionais do jornalismo devem estar abertos às mudanças, aos outros. Jornalista Cultural também deve seguir esse preceito e dar atenção à "aldeia", ao local, a quem está começando. Aí um bom horizonte.


31 - Grande Sertão Veredas é um livro fantástico, brincamos que o Guimarães Rosa é o padrinho do @nonadatravessia , o nome é devido a palavra que abre e fecha o livro. Uma caminhada, travessia de aprendizado, para nós no jornalismo cultural - e na vida.


32 - Como disse em tópicot anterior: leia, se informe, se especialize em segmentos do seu interesse. Não há como saber tudo. E quem tenta saber tudo, não sabe é nada na verdade.


33 - A arte salva, bom jornalismo cultural reflete sobre a nossa condição de vida, de luta, de diversidade, de aprendizados e caminhos. É apaixonante!


34 - Leia diversas fontes, diversos textos sobre um assunto, só assim temos capacidade de comparação e crítica. sigamos.


35 - Jornalismo Cultural não é só agenda! Aliás, acho que cada vez menos devemos ir por esse caminho, procurar a análise, a apuração, a cobertura, a reportagem. Claro, agenda, serviço, é importante, mas acredito que muita gente já faz isso.


36 - Acho que a nossa profissão está se transformando e indo além do próprio jornalismo. Muitos "fãs" produzem um conteúdo mais relevante do que jornalistas que cobrem entretenimento, por exemplo. Entretanto, há características próprias do jornalismo que continuam relevantes.

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