• Rafael Gloria

Era torto e necessário



Joguei a folha rabiscada com a frase para Elisa que fugiu após observar o papel caindo no chão da sala. Foram alguns passos até estancar no meio do carpete, parada perto do sofá. Ela nada dizia. Eu permanecia calado, esperando alguma reação após a minha desesperada tentativa de contato. Acredito até que ela tenha chegado a ver a frase, mas não dera atenção: preferiu se omitir de minhas palavras para não precisar responder. Falar também já não mais adiantava, desisti após uma semana de contínuos vácuos que só serviram para me inibir e partir para essa vexatória tentativa de aproximação por meio da palavra escrita. Comecei então a colar pequenos recados em cada cômodo da nossa residência, tais como:




Nunca obtive reação. Depois de um tempo os encontrava amassados por várias partes da casa. E já que colar nas paredes não bastava comecei a tentar surpreendê-la atirando em sua direção os pequenos pedaços de papel. Era patético. Mas eu não estava nem aí para nada, o fato do silêncio cru, malicioso e genérico me incomodava tanto que ao invés de ir embora, ao invés de sumir do lugar, eu permanecia ali só de birra, só para ver quem venceria a nossa briga.


Foi então que decidi pela tentativa final, o recado derradeiro, e joguei para ela as últimas palavras no papel acertando as suas costas, ela não me olhou (como ela sempre faz, com aqueles malditos cabelos lisos ruivos escuros compridos). Ela não me olhou e ainda riu como de escárnio, com a boca colorida pelo batom que eu havia lhe dado no seu aniversário há alguns meses, e sentou no sofá.


Pegou lápis qualquer e começou a escrever emendado – pude notar que era emendado por causa do tempo que tomou, por causa daquela letra caprichada que eu sabia que ela tinha. Escreveu e nunca olhando para mim, retirou o pequeno papel do caderno, e pude ouvir aquele barulho cru e sangrento que cometemos ao cortar o cordão umbilical da folha. Depois disso, como se não bastasse, ainda decidiu amassá-la e – sempre olhando para o lado – jogou agora a pequena bolinha em minha direção.


Corri por entre as cadeiras no meio da sala, encontrei a folha e revirei vigorosamente o pedaço torto do papel. Desdobrei até deixar visíveis as palavras, e então a frase, e logo o ponto final. Era torto e necessário:




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