• Rafael Gloria

Enfim, casados

Juninho sempre fica vermelho quando chega perto de Paulinha. Vermelho que nem a cor da camiseta que usa. Gosta dela tanto quanto gosta de dormir até tarde, ou de comer massa na casa da avó todo domingo. “Ela parece raio de sol”, disse para o melhor amigo um dia sobre a Paulinha. “Me esquenta todo”, complementou.


Não sabia como agir ao ver a coleguinha do colégio, alguma coisa o impedia de dar oi, ou convidar para brincar. “Será que ela gosta de jogar bola?”, se perguntava. Para logo depois lembrar que era coisa de menino. Percebeu que ela adorava brincar de casinha com as amigas no recreio, e refletiu obviamente que se tratava de coisa de menina.


Foi matutando durante a aula de português, olhando de canto para os cabelos lisos e compridos todos delicadamente penteados de Paulinha, que decidiu de uma vez por todas tentar algo nesse recreio. Quando a chata da coordenadora tocou a campainha, ele estufou os peitos e seguiu em riste.


A menina brincava no pátio junto com as amigas fingindo que estavam organizando as suas casas. Eram cerca de quatro meninas que, naturalmente, tinham menos vergonha do que os meninos. Paulinha orientava as outras de que o chá estaria pronto em breve e que todas poderiam tomar. Juninho se aproximava, prestando a atenção na conversa das meninas, e ficando cada vez mais vermelho.


Estancou em frente a elas e, com dificuldade, a chamou: “Paulinh...errr”. Surpresa, a menina que raramente havia escutado a voz do colega respondeu, “O que foi, Juninho?”. “Eu trouxe o pão para o chá”, disse levantando a mão e fingindo que trazia uma sacola cheia de pequenos pães. Ela então entendendo a brincadeira, e ele então vermelho e com o braço direito levantado deu sorte. “Obrigada, esposo, ela respondeu, você quase se atrasou para o chá, olha, nossas visitas já estão em casa. Você já guardou o carro? (...)”

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