• Rafael Gloria

Ele não é um personagem

Engraçado como cada vez mais perdemos o contexto. E perder o contexto é perder a história, os pormenores, detalhes do que faz aquilo (acontecimento, cena, pessoa, coisa) importante.


Eu posso chegar para um grupo de pessoas e apresentar um personagem que estou desenvolvendo pelo nome, a altura, o peso, a cor do cabelo, a cor dos olhos. Mas se eu não dizer o que o motiva, o porquê dele existir, praticamente não prenderá a atenção de ninguém.


É a mesma situação de um acontecimento real, com a diferença que todos nós damos importâncias mediadas a determinados lugares. Ou melhor, falando como jornalista, às vezes esquecemos que trabalhamos por meio de ressignificações de distintas visões de distintas pessoas.


Estou convencido que é necessário manter o contexto. Lutar por ele. Explicar o máximo possível ao redor de um acontecimento, de uma pessoa, de um perfilado. Porque não há verdade absoluta nesse mundo. Não há personagem completo, ou perfil perfeito.


Há cenas e cenas. Detalhes e detalhes. Coisas e Coisas. Pessoas e pessoas.



Um jornalista que esquece disso está fadado ao fracasso. Um candidato a cargo da presidência que foge dos contextos e aposta só em frases prontas, sem propostas reais e capacidade de argumentação está fadado ao fracasso.


O perigoso, nesse último caso, é que ele leva todos nós juntos.


É possível fazer um perfil jornalístico fascinante de Jair Bolsonaro, tenho certeza disso. Porque um bom perfil exige apuração, busca de diversas fontes, argumentação, capacidade de convencimento, informações e um certo grau de entretenimento. Coisa que, ironicamente, tal candidato não possui.


Pena que ele não é um personagem.

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