• Rafael Gloria

Das manhãs


Foi por entre o forte cheiro de café, no meio das cascas de pão que preenchiam a mesa e ao redor do som das notícias espalhadas pelo rádio que eu percebi. O dia lentamente acordava, quando Aline chegou-se para sentar à mesa, ao meu lado. Trazia com ela a cara de sono, as leves olheiras brotando por baixo dos olhos castanhos claros, e o seu corpo vestia uma das minhas camisetas — que nela tornava-se larga o suficiente, confortável o suficiente. Toda descabelada, as pernas finas agora se ajustavam à cadeira. Sorrindo como se fosse para sempre, ela pegou a faca e lentamente a passou no pote de margarina , em seguida a atravessou em um pedaço de bolo de cenoura. A mesa do café até que estava farta. Eu só observava. As cascas de pão doce e as notícias sobre roubo de carros sumiam, quando ela me encarava em tom doce-jocoso, ou brincava com o meu cabelo recém lavado do banho. Assim desse jeito descabelada, com olhar cansado e sincero, assim com o sorriso de quem só quer estar ali, puxando minha mão toda hora, eu sequer pensava nas oito horas de trabalho, nos colegas chatos, nos dois ônibus que teria que tomar. Eu simplesmente não queria sair daquele momento. Talvez tenha sido apenas o efeito da sua mordida no bolo de cenoura, mas meu joelho arrastou-se para o chão, e lá pelas oito e pouco da manhã de uma segunda-feira, por entre o cheiro de café, por entre as cascas de pão, por entre as notícias ruins, por entre o piso frio da cozinha, eu pedi a mão de Aline — ou os olhos cansados, o sorriso sincero, o jeito de passar a margarina no bolo — em casamento.

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