• Rafael Gloria

Chumbos

A casa abandonada ficava um pouco mais longe, afastada das outras do bairro. Muitos jovens usavam o lugar para tentar se divertir, passar o tempo jogando conversa fora, o que seja. Eles só queriam tentar pensar em outra coisa que não fosse o calor. Era quase seis horas da tarde e o sol não dava sinal de ir embora.


De longe, Antônio escutou um barulho que não sabia reconhecer. Primeiro achou que podia ser alguém quebrando pratos. Apressou o passo e, ao entrar no pátio cheio da grama alta, foi direto aos fundos. Lá, Paulo e Henrique dividiam uma espingarda de chumbinho e faziam das garrafas de vidro os seus alvos.


“O que é isso?”, perguntou Antônio.


“Encontrei nas coisas do meu pai, na garagem”, disse Henrique, enquanto Paulo completamente focado só atirava. “As garrafas a gente achou por aí, na rua, na venda tinha algumas também”, completou.


“Posso atirar depois? Nunca fiz. Quero ver como é”.


“Não sei, de repente...Espera, depois do Paulo é a minha vez. Olha, você pode ir catando mais garrafas pra gente enquanto isso”.


Antônio saiu em disparada e, correndo, pulou a pequena cerca que falhava em tentar proteger aquele casarão. Correu até a próxima esquina e começou a revirar o primeiro lixo que viu. Muita comida estragada, caixas descartáveis e qualquer outra porcaria que não lhe interessava nada.


Precisava da garrafa de vidro. Podia ouvir de longe os tiros, e ficava se perguntando como era quebrar alguma coisa.


Lembrou-se da venda e resolveu tentar a sorte. João, o dono, até pensou em perguntar o porquê daqueles moleques do bairro, de uma hora para outra, pedirem velhas garrafas de vidro, mas, com pressa, decidiu só dar duas sem pedir maior explicação. Antônio partiu triunfante para, quem sabe, conseguir dar uns tiros.


Ainda longe, ouviu um grito e correu o mais rápido que pôde, deixando uma das garrafas cair no meio do caminho.


Quando chegou ao pátio, notou de imediato Paulo deitado no chão, em choque, com o olho esquerdo todo ensanguentando. Nunca tinha visto um olho daquele jeito. Um pouco mais atrás Henrique também atordoado segurava a espingarda e, subitamente, apontou-a para Antônio.


“Por que tu tinha que voltar?”


“O que aconteceu?”


“Ele me irritou. Tu sabe, ele me irrita há muito tempo”.


“Do que tu tá falando?”, Antônio começou a se mover tentando enxergar mais Paulo.


“O desgraçado não queria dar a MINHA própria arma, que eu achei nas coisas do pai. Falava que eu não ia acertar nada. Taí a prova. Tu acha que eu não acertaria tu também?”


“Não, não. Eu tenho certeza de que tu me acertaria. Mas olha o que tu fez. Tu sabe no que isso vai dar?”


“Sei, e é por isso que eu não vou dizer nada, e nem tu também. E agora tu vai me ajudar a colocar ele no porão da casa até eu pensar em alguma coisa.” E continuou apontando a espingarda de chumbinho para Antônio, que se sentiu enjoado com tudo aquilo. Não sabia o que fazer, mas a ideia de ter o olho ensanguentando o assustava muito.


Mesmo não querendo, foi caminhando até onde Paulo estava, enquanto Henrique o seguia com a arma ainda apontada. O trajeto até Paulo envolvia se desviar das garrafas quebradas no chão, ao mesmo tempo em que não podia tirar o olho de Henrique. Era como se agora Paulo fosse um pedaço de nada, fritando no calor.


Antônio acabou caindo de joelhos e vomitando. As duas mãos no chão, uma mão agora ensanguentada também devido a um grande caco de vidro.


Não conseguia mais pensar direito.


Aproveitou o momento de distração de Henrique, rapidamente pegou o caco e o afundou entre as suas costelas. Acabou repetindo várias vezes o gesto para ter certeza de que a garrafa ficaria ali encravada.


Então era essa a sensação de quebrar alguma coisa.


Deixou os dois lado a lado caídos no chão e correu, a grama alta toda cheia de sangue, e correu ainda mais para longe do casarão.

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