• Rafael Gloria

Carta de uma filha para uma mãe

Mãe,


Estou te escrevendo porque aconteceu uma dessas pequenas tragédias aqui em casa. Espero que leia a tempo de poder ajudar a consertar o nosso problema. É com o Julinho, coitado. Sabe como ele adorava aquele canário amarelo, né? Ele amava aquele bicho, passeava com ele todo santo dia pelo pátio e levava aquela gaiola para todos os lados. Chegava a ser engraçado. Era um canário agitado, ele parecia gostar das traquinagens do seu neto.

Costumávamos brincar dizendo que ele gostava mais do Bob do que de nós. Do que a senhora também – já que a sua ausência virou uma espécie de companhia.


Mas foi ontem que o barco desaguou. A gente encontrou o Bob caído dentro da gaiola, morto, olhos esbugalhados e o bico um pouco rachado. Várias formigas o devoravam, pouco a pouco. Possivelmente havia morrido no começo da noite passada e ninguém se deu conta, ninguém ouviu nenhum barulho. Pensamos de imediato no Julinho que ainda dormia no quarto, inocente de tudo que acontecera. Tiramos as formigas de cima do pássaro e o depositamos em um recipiente plástico, combinamos de que iríamos inventar alguma história.


Convencionamos todas as desculpas, pensamos em possíveis respostas para possíveis perguntas que ele nos fizesse. A ideia era simples: por um descuido de alguém da casa, a portinha havia ficado aberta e ele teria ido embora, para a natureza, com os seus outros amigos pássaros. Mas o guri não aceitou essa. Veio com argumentos difíceis de serem batidos, biologicamente corretos e deveras avançados para uma criança de sua idade. O nosso silêncio acabou dando resposta. Engraçado que, para entender aquilo que não é dito, basta sentir.


Não sei porque naquela hora eu senti a senhora também, minha mãe. Não me lembro de ter tido um pássaro, nem nada. Acho que nós nunca tivemos a oportunidade de dividir alguma coisa. Sei que esse pensamento me ajudou a querer entender o que se passava com o meu filho. Eu sentei, abracei, abracei novamente, coloquei do meu lado e expliquei duramente, amavelmente que as coisas morrem. “As coisas morrem, filho”. Eu disse uma hora. Ele fez um beiço para não chorar e os olhos tentaram fugir da consciência que enfim chegava naquela cabeça de 10 anos.


E que, de certa forma, demorara muito mais tempo para chegar na minha. As coisas morreram entre nós, mãe – e há muito tempo. Então estou te escrevendo para contar essa pequena tragédia, que começou com o Julinho, mas acabou comigo. Não acho que você possa ajudá-lo, até porque acredito que ele se virará bem a partir de agora. Mas eu, entretanto, eu gostaria de sentir a senhora, de compartilhar alguma coisa que não seja apenas a distância.


Da sua,


Rita

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