• Rafael Gloria

A morte deve ser um gato batendo à porta

Eu tinha uma gata. Ela morreu há pouco mais de dois meses. Não se sabe se foi devido a uns cachorros de rua (não os culpo, a fome devia ser grande), ou se foi por atropelamento. Mais provável que tenha sido o segundo. Mas não importa agora, o fato é que eu tinha uma gata e ela morreu.


E, então, de vez em quando eu ouço sons, ruídos. Como se alguém se aproximasse aos poucos e estancasse no silêncio. O ar é pesado. E leve. Quando viva, a gata gostava de andar pela casa de madrugada — isso quando não dormia enrolada no meu cobertor. E fazia uns barulhos ao roçar pela mesa da cozinha, ou quando subia a escada. Um passo de gato, sabe? O que mais me incomodava na época era que frequentemente no meio da madrugada ela arranhava a porta do meu quarto para entrar e vir dormir aqui. Ou miava baixo, o que acabava soando como um gritinho abafado por um travesseiro. Me incomodava porque eu queria descansar e lá estava ela querendo a minha companhia, que droga essa gata.

Que droga eu, penso agora.


E se quando a minha Indesejada da gente (obrigado, Manuel Bandeira) chegar ela for que nem uma gata na noite? Rondando aos poucos, suspirando e não sendo vista, esperando a madrugada para bater na porta? Pode ter certeza que eu vou abrir – porque provavelmente é a hora. Vou a deixar entrar e me rondar, encostar o corpo peludo nas minhas pernas e ronronar. Acabaremos a noite dormindo juntos, enrolados no cobertor.


À espera disso que ninguém sabe o que é.

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