• Rafael Gloria

A história de uma das muitas mães silenciosas

por Elise Bozzetto*


Conheço Vivian há exatos 19 anos. Ela passou em primeiro lugar no concurso que passei em quarto. Ela engravidou aos 18 anos, quando recém tinha sido chamada para ocupar o cargo. Ela casou grávida. Na época, lembro, era quase um escândalo engravidar nessa idade, nada era tratado com muita naturalidade numa cidade do interior, numa sociedade regida pela rígida moral cristã. Mas Vivian era tão profissional e ética que não lembro de ouvir comentário algum sobre a maternidade precoce da então estudante de segundo semestre e mais nova secretária de um departamento importante da Univates. Nenhum comentário, nenhuma conversa. Ela talvez não sofria as fofocas (quem sabe dos olhares que confessavam julgamentos?), mas sofria da solidão de não compartilhar, de não se deixar acolher. A então menina silenciou sua história até hoje, quando pela primeira vez falou sobre tudo o que sentiu e deu voz à sua experiência.

Imagem ilustrativa (Crédito: Tuane Eggers)

Combinamos um almoço ao meio dia em ponto. “Tô na farmácia” foi a mensagem que recebi dela às 11h58min. E eu, atrasada. “É uma britânica essa minha amiga”, pensei. Engraçado, a Vivian é mesmo britânica. Seus olhos profundamente verdes tirariam com muita facilidade a confissão de qualquer um. É um olhar penetrante, que busca a verdade, onde quer que ela esteja. É sarcástica, extremamente sarcástica, seu humor não é para qualquer um. Comedida, solene, organizada. Oposto de mim. “Como conquistei essa mulher?”, eu me pergunto. Lembro então do Fernando Anitelli (Teatro Mágico): “os opostos se distraem, os dispostos se atraem”. Somos, irrevogavelmente, ambas dispostas. Praticamente esbarrei com ela na saída da farmácia. Ela sorriu e fomos almoçar.


O ano era 1999. Vivian, então com 18 anos, morava com os pais, no interior de Teutônia, uma cidade do interior do Vale do Taquari, que, por sua vez, é interior do Rio Grande do Sul. A menina era estagiária em uma faculdade, cursava o segundo semestre de Comércio Exterior e estava participando um processo seletivo concorrido para ser efetivada. No meio do concurso, ela começou a sentir enjoos, e desconfiou que seu futuro estava prestes a mudar. Com medo de descobrir, ela não fez testes. Aguardou, silenciosamente, até não ter mais como esperar. Foi ao médico sozinha depois de 3 meses e confirmou no consultório a gestação.


“Foi um choque. Eu não queria decepcionar ninguém. As coisas tinham que acontecer dentro daquilo que eu planejava. Ser uma boa filha, uma aluna exemplar, aquela de sentar na primeira fileira. Imagina, justamente eu, engravidar, no segundo semestre da faculdade, estagiária, meu namorado tinha recém-começado a trabalhar. Não tínhamos condições financeiras nenhuma. Pensar em casar, que dirá ter um filho. Foi um choque”.


Vivian não contou para ninguém. Demorou três meses para contar para os pais. Não queria de forma alguma casar, mas seu pai foi taxativo: tem que ter festa.


“Como família do interior, tem que casar de véu, grinalda, fazer festa, convidar toda a comunidade, e eu não queria aquilo. Mas, nossos pais não abriram mão de fazer uma festa. E eu, filha única, como não daria a festa? Como negaria isso a eles? Organizamos tudo sem eu contar para ninguém que estava grávida, para nenhuma amiga, absolutamente ninguém sabia. Casamos dia 2 de outubro. O resultado do concurso saiu na metade de setembro. Eu estava grávida de quase 5 meses e ninguém tinha percebido. Minha meta era ficar em primeiro lugar, eu só pensava: ‘eu preciso ficar em primeiro lugar porque eu preciso desse salário, dessa estabilidade, de um plano de saúde’. E eu fiquei em primeiro. E quando me chamaram, me deu um bloqueio. Contei para a minha chefe, quando ela me chamou para dizer que eu iria para a secretaria. E deu tudo certo, ela disse tudo bem, que me contrataria da mesma forma, mas daquele jeito: me olhando por cima dos óculos, com cara de nojo, disparou: ‘agora tu vai ficar na sarjeta?’. Esse foi o apoio dela na época. Já peguei do bolso o convite do casamento e entreguei a ela. Mas eu fiquei bloqueada, não conseguia contar para meus amigos, nem para os colegas. Eu precisava convidar todos para o meu casamento e simplesmente não conseguia, pois não podia falar a respeito.”


Durante toda a gravidez, Vivian falava muito pouco sobre o assunto.


“Eu não falava sobre o que estava sentindo, aquilo causou um bloqueio. Eu não conseguia conversar. Mas, quando o Arthur nasceu, eu estava pronta, nasci como mãe. Me tornei uma mãe. E acho que sou uma boa mãe. Meu foco passou a ser ele full time. Sempre tentei fazer o meu melhor no papel de mãe. Claro, a vida toda mudou. Eu tranquei meu curso, fiquei um ano sem estudar para ficar com ele, para poder dar atenção. Por isso levei quase dez anos para terminar o curso. E eu achava que precisava ficar com ele o tempo todo que me era permitido quando ele era pequeno. Mas, ele foi crescendo e eu percebi que ele exigia mais atenção na medida em que ele ia crescendo”.


O mais contraditório, conta Vivian, foi que, mesmo chorando durante 3 meses ao descobrir-se grávida, mesmo tendo somente o apoio do namorado para enfrentar essa mudança tão significativa em sua vida, e, mesmo silenciando seus sentimentos, foi também a gravidez o período no qual ela se sentiu mais forte e segura. “Não sei se foi hormonal. Foi um período muito difícil, mas foi um período no qual me senti muito feliz. Muito tranquila para enfrentar toda a situação”. Por não ter tido tempo para se preparar, por não ter planejado, a maternidade também não teve espaço para idealizações. “Eu não tinha expectativas, ele não foi planejado, mas foi sempre muito amado”, declarou.


Vivian foi uma mãe solitária.


“O meu círculo de amigas eram pessoas que estavam começando a sair, eu não tinha com quem dialogar. Eu não tenho irmãos, tenho uma família muito pequena, as pessoas mais próximas, minhas primas, elas nem namoravam ainda! Minhas colegas, todas com 19 anos, ninguém falava sobre isso. Hoje minhas amigas estão com filhos pequenos e também minhas conversas já são diferentes. Então, fui uma mãe muito solitária”.


A solidão fortaleceu a família. “A gente amadureceu juntos. Crescemos juntos. A gente passou a fazer tudo junto, sempre os 3. Não sei até que ponto isso é bom ou não, mas a gente acabou se fechando e se unindo tanto que essa relação é muito forte. Nunca viajamos sem o Arthur, nem cogitamos isso. Não sei até que ponto isso é saudável, ou certo, mas isso influenciou até no jeito do Arthur. Ele só conviveu com adultos, amadureceu muito cedo também”.


Foi a primeira vez que Vivian falou sobre o assunto. Nem com sua mãe havia trocado qualquer ideia a respeito. “Sabe que me sinto bem, estou bem resolvida, falar disso me faz ter a certeza que eu faria tudo do mesmo jeito”.


Arrependimentos? Talvez um. Talvez não ter tido o segundo filho. “Sabe, talvez eu iria repensar isso. Eu queria estudar, queria me firmar no meu local de trabalho, queria e precisava crescer para dar uma vida estável para ele, e a coisa do segundo filho foi sendo adiada. Acabei me formando com 28 anos e meu marido ainda não tinha estudado. O Jair começou a estudar, se formou em 2015 e daí, quando nos damos conta, o Arthur já tinha 15 anos. O tempo passou e acabamos não tendo o segundo filho, mas às vezes penso que o Arthur deveria ter tido a possibilidade de ter tido um irmão”.


Vivian nunca me contou sua história. Mas eu já a conhecia. Apesar de tantas diferenças em nosso jeito, em nossa caminhada, a vida sempre nos colocou em sintonia e, silenciosamente (pero no mucho), respeitamos e acolhemos uma à outra, durante todos esses anos.


*Elise Bozzetto é jornalista e participou do primeiro curso de extensão em Escrita Criativa no Jornalismo realizado na Univates em junho de 2018.


Confira aqui um depoimento de Elise sobre como foi escrever essa História de Vida:



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